Ao encontrar um bilhete esquecido dentro de um antigo exemplar de Dom Quixote, Cecília inicia uma troca de cartas com Miguel, o misterioso autor da mensagem. Entre memórias, reflexões e referências literárias, nasce uma amizade improvável, construída palavra por palavra. Esta narrativa delicada celebra o poder dos encontros e da literatura como ponte entre mundos e pessoas.
Perguntas frequentes sobre este livro
- Quem escreveu "Cartas de Cecília"?
- "Cartas de Cecília" foi escrito por Penélope Martins e Tiago de Melo Andrade.
- Para qual faixa etária é indicado "Cartas de Cecília"?
- Este livro é indicado para a faixa etária: 12-14 anos.
- Quantas páginas tem "Cartas de Cecília"?
- "Cartas de Cecília" tem 84 páginas.
- Qual o ISBN de "Cartas de Cecília"?
- O ISBN de "Cartas de Cecília" é 9786561421393.
- Qual editora publicou "Cartas de Cecília"?
- "Cartas de Cecília" foi publicado pela Elo Editora.
- Quais temas "Cartas de Cecília" aborda?
- "Cartas de Cecília" aborda os temas: Amizade, Literatura, Comunicação, Memória, Identidade, Introspecção, Descoberta, Conexão, Emoção, Expressão.
- Que competências "Cartas de Cecília" trabalha?
- "Cartas de Cecília" trabalha as seguintes competências: Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza, Ciências Humanas.
- Como "Cartas de Cecília" pode ser usado em sala de aula?
- Nesta obra temos o resgate da utilização da carta, para se comunicar, a carta é considerada um gênero textual, ou seja, um tipo de texto com características próprias de estrutura e linguagem. Nesta obra este recurso foi utilizado para expressar sentimentos, manter laços afetivos, fortalecer relações interpessoais, transmitir informações relevantes e até mesmo registrar a história de uma época. Em Cartas de Cecília, a personagem principal Cecília que leva o nome no título, é uma garota apaixona por livros e livrarias, isto por influência da sua mãe e seu avô. Data: 29 de setembro A garota começou a carta descrevendo um pouco de sua casa. Dizia que vivia em um lugar com muito acesso a livros antigos, já que sua mãe era tradutora. Contava que crescera entre pilhas e pilhas de livros. Mais tarde, ela e a mãe se mudaram para um apartamento que ficava sobre uma livraria, cuja entrada era também a porta de acesso a livraria, que era um local peculiar, com uma entrada pequena e charmosa, ornamentada com arabescos e mosaicos de vidro colorido. As prateleiras de madeira cobriam as paredes do chão ao teto, e uma escada corria por uma barra de metal para alcançar os exemplares mais altos. Entre uma prateleira e outra, havia rendas de madeira, mãos francesas e detalhes que lembravam nenúfares — uma arquitetura de forte influência art nouveau. O livreiro, Dom Miguel, era um homem um tanto formal, que insistia em ser chamado de "senhor livreiro". Parecia ter mais de cem anos, pela quantidade de conhecimento que carregava. A tudo que se perguntava, ele tinha resposta. Por isso, a garota brincava, chamando-o de “Mestre Google”. Dom Miguel dizia que, apesar de reconhecer a poesia contida na tecnologia de armazenar memórias na nuvem, ainda confiava no peso do papel e no cheiro dos livros. Foi naquela livraria que ela teve o primeiro contato com um livro de capa azul, título em espanhol gravado em letras douradas: Don Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes. Seu avô lhe apresentara a obra, descrevendo o protagonista como um cavaleiro errante em tempos de mudança. Ela disse que trouxera apenas aquele exemplar — mas, dentro dele, carregava uma árvore inteira. Deixara um ramo de acácia secar entre as páginas. E sempre que o abria, sentia-se de novo encostada ao tronco da árvore. Achava que fora assim que compreendeu o que Cervantes queria dizer com "laços profundos". O livro de Dom Miguel estava desgastado: as bordas de tecido puídas, o título da capa descascado. E foi assim que chegara até Miguel. Contava que, como um detetive, encontrara um bilhete dobrado em papel ressecado dentro da obra. Quase ninguém escrevia mais à mão, mas aquela letra dizia muito sobre quem a havia escrito. Talvez Dulcineia não tivesse entendido... Seria aquilo um bilhete de adeus? Seu pai também não dissera adeus, mas deixara um bilhete sobre a mesa: “não consigo mais”. Acreditava que algumas coisas simplesmente ficavam sem palavras. Determinada a garota conseguiu vasculhar o endereço de Miguel a partir da ficha da livraria de Dom Miguel. Descobrira de onde viera o livro, trocara mensagens com a moça do sebo e reunira mais pistas. O sebo ficava no Catete, no Rio de Janeiro — ela já o visitara, na ocasião em que conhecera o Palácio do Getúlio Vargas. Finalizava dizendo que achava Miguel um poeta. E, como o bilhete fora parar em suas mãos, sentia que deveria escrever aquela carta. Queria saber mais sobre essa história. Data: 7 de novembro Miguel respondeu justificando a demora. Contou que, inicialmente, achou estranha a carta recebida — fazia anos que não recebia uma — e sentiu um certo receio. Confessou preferir escrever suas cartas à mão, pois gostava de sentir a caneta marcando o papel. Comentou sobre sua exigência como leitor e perguntou se ela já havia percebido como uma pessoa muda de um dia para o outro. Disse que, aos dezesseis anos, é natural ter pressa, uma inquietação constante — mas ele já era velho e, por isso, já não tinha tanta pressa, até porque já não conseguia ser tão ligeiro quanto antes. Relembrou o bilhete que ela mencionara e disse também amar as palavras. Em seguida, falou sobre o bilhete deixado pelo pai dela e devolveu a pergunta: o que a impedia de responder? E, se aquela resposta fosse dirigida ao próprio pai, o que ela escreveria e deixaria dentro de um livro? Data: 15 de novembro Cecília respondeu rapidamente, como quem já sabia que Miguel não deixaria sua carta falando sozinha. Pediu que ele não demorasse tanto a escrever da próxima vez. Contou que sua mãe dissera para ela parar de incomodar “o senhor” como se ele fosse alguém da família — e isso a fez rir. Apesar de rabugenta, a mãe também estava curiosa com a história por trás do bilhete, e aguardava pela resposta de Miguel. Cecília refletiu sobre sua própria rigidez e disse acreditar que isso tinha algo a ver com o assunto do pai. Sentia que precisava de mais tempo para pensar a respeito. Relatou que, ao sair do colégio, foi direto para a livraria de Dom Miguel, que estava com os olhos baixos, concentrado na pintura da plaquinha que informava o horário de funcionamento. Ele lhe contou histórias sobre dona Alice, seu grande amor. Antes, aquilo tudo lhe parecia tolice, coisa que vivia apenas entre livros. Mas, ao ouvir que Alicinha gostava de plantar, percebeu o quanto ele sentia saudades. Por isso, começou a brincar com ele, folheando livros em busca de objetos esquecidos. Dom Miguel acabou encontrando uma cédula estampada com o rosto de Marechal Deodoro da Fonseca — justamente no dia 15 de novembro. Pulava como uma criança de alegria. Ele chamava aquilo de coincidência, mas Cecília preferia acreditar que eram “curiosidades”. Lembrou que sua carta anterior havia sido escrita no dia do nascimento da poeta Cecília Meireles, para outra Cecília, que inclusive levava seu nome por causa da escritora. Outra coincidência, talvez. Ou não. Ela própria esperara o dia do nascimento de Miguel de Cervantes para escrever ao Miguel da livraria. Por fim, perguntou: seria palhaçada imaginar que alguém pudesse encontrar uma carta dali a cem anos? E então pediu, mais uma vez, que ele contasse um pouco mais sobre o bilhete. Data: 27 de novembro (eu acho) Em sua resposta, Miguel também se identificou como uma pessoa distraída. Comentou que, à medida que os fios prateados surgiam em sua cabeça, isso parecia se agravar. Percebera que havia enviado apenas metade da carta anterior — a outra folha, deixara esquecida dentro do envelope. Estava tão entusiasmado em lamber os selos que acabara deixando uma parte do lado de fora. Prometeu enviar o restante agora. Disse que já haviam entendido que coincidências não existiam — e talvez não fosse ainda o momento certo para ela saber sobre o bilhete. Comentou que, ao ser acusado de poeta, sentia-se ridículo. Pensava em nomes como Neruda, Cecília, Manuel Bandeira... e sentia-se pequeno. No entanto, seu neto — que tinha quase a mesma idade de Cecília — o chamava de poeta. Ignorava sua timidez, criava imagens dele pela internet. Miguel confessava sentir vergonha daquilo. Dizia que, ao deixar uma trilha de migalhas, certamente facilitara que Cecília o encontrasse. Por fim, declarava-se uma criatura analógica — um tipo quase extinto. Data: 8 de dezembro Cecília iniciou a nova carta com alegria, dizendo que, desta vez, a resposta havia chegado tão rápido quanto um e-mail. E perguntou a Miguel: será que ele usava e-mail? Contou que, a caminho da agência dos Correios, passara por um castelinho coberto pelo jasmim-do-imperador, que tomava toda a fachada da casa. A dona da casa, Olga, certamente agradaria ao senhor Miguel — ao menos, Cecília achava que sim. O marido de Olga fora um homem sem títulos, mas que construíra um castelo com duas torres, sacadas com gárgulas, escada em caracol e até uma claraboia vinda de navio da Itália. Apesar de todo esse esforço, ele morreu sendo chamado de “João Ninguém”. Curiosamente, contou Cecília, Olga era exatamente o oposto dele: uma mulher simples, humilde, que criava galinhas, codornas, iguanas e ovelhas. E, para esclarecer, afirmou que o nome do marido de Olga, na verdade, era Aureliano — e não João. Data: 15 de dezembro Cecília comentou o telegrama que havia recebido de Miguel — parecia uma mensagem cifrada. Disse que haviam falado sobre o nome “Olga”, que lhe remeteu a uma personagem de uma obra que havia lido. Demonstrou indignação: como poderia um presidente mandar uma pessoa para a morte? Continuou sua narrativa em defesa de Olga, dizendo que nem os irmãos Grimm haviam escrito algo tão macabro. Revelou que havia fundado um clube do livro chamado “Clube Livraria”, e que os encontros aconteciam na livraria do senhor Dom Miguel. Participavam o Henrique professor de Química, sua mãe, Olga, Jonas |(carteiro), Joaquim e Valentim sobrinhos de dna Alice e Dom Miguel. Contou que Henrique ficara de olho em sua mãe, e achava que talvez fosse bom ela ter um namorado. O tema da solidão a levou de volta ao bilhete encontrado. O que mais lhe chamava a atenção era a ideia de dizer adeus e, mesmo assim, continuar. Para ela, era importante entender que um adeus não precisava ser um monstro de dentes afiados. Encerrava a carta dizendo que sua mãe mandava lembranças ao “amigo poeta”, e afirmava que ele os havia unido. Acrescentava que, pelas palavras e pela confiança, havia construído uma amizade eterna. Data: 19 de dezembro Miguel respondeu dizendo que adorou a ideia do clube do livro, afirmando que um livro só se realiza plenamente, dentro do leitor. Explicou que as palavras são sementes que germinam em cada pessoa de maneira única. Acreditava que dar vida a um livro era algo divino — o maior prêmio de quem lê. Incentivou Cecília a se aventurar por mundos de suspense, vampiros, alienígenas, feiticeiros e esqueletos, pois os livros permitiriam enfrentar os próprios medos. Disse que, mesmo mergulhando em universos estranhos, o leitor sempre carrega consigo a chave que abre novas portas. A literatura, segundo ele, era um pouco dessa magia — até Machado de Assis ganhara o apelido de "bruxo". Mencionou uma poeta chamada Adélia Prado, que escreveu: “Tem dias que Deus me tira a poesia... e pedra... e só pedra”. Miguel também esclareceu que Olga não era sua companheira — ele era viúvo. Confessou, porém, que achava muito romântica a imagem de uma senhorinha vivendo num castelo tomado por trepadeiras. Admitiu ter uma leve queda por histórias com castelos e elementos de contos de fadas. Disse que ela provavelmente havia se confundido com o telegrama — o que era compreensível, já que fora econômico nas palavras. Antigamente, o preço de um telegrama era determinado pela quantidade de palavras, e ele quis proporcionar a Cecília essa experiência. Prometeu que contaria sobre o bilhete do livro e sobre quem fora sua companheira — mas apenas no momento certo, pois era uma história que precisava ser contada com muito cuidado. E ainda não era hora. Data: 25 de dezembro Cecília iniciou a nova carta desejando a Miguel um feliz Natal. Comentou que a livraria havia ficado fechada porque Dom Miguel passara mal — tinha exagerado no vinho durante a celebração natalina. Retomou então a reflexão sobre onde, afinal, um livro realmente se realizava. Admitiu que sabia ser muito jovem — tinha apenas dezesseis anos — e, por isso, havia muitas coisas na vida que ainda não compreendia. No entanto, desejava entender algumas delas, como, por exemplo, o desaparecimento do pai, que havia revirado por completo a vida de sua mãe. Contou que antes não tinha coragem de tocar nesse assunto, pois lhe causava muita mágoa. Comentou que os tempos estavam difíceis — uma frase que sua mãe repetia com frequência. Narrou que Olga havia reunido a todos para uma fogueira de Natal no castelinho. Descreveu Olga como alguém que cozinhava, cuidava do jardim, costurava, pintava paredes e falava sobre filosofia — tudo com uma calma admirável. Aos poucos, percebia que sua mãe começava a se inspirar nela para encontrar formas de relaxar. Contou ainda que sua comunidade de amigos estava crescendo. Revelou a Olga sua confusão com o telegrama de Miguel e refletiu como a ausência de palavras podia nos deixar perdidos. Disse ter relido Memórias Póstumas de Brás Cubas após a morte de seu avô. Eles tinham um ritual às nove horas da noite: ela se deitava sobre o tapete, e ele lia alguns capítulos do livro. Foi assim que Machado de Assis se tornou, para ela, como um parente. Seu avô, dizia, era um homem à frente do tempo — queria que ela fosse forte, inteligente e aventureira. Ele acreditava que a beleza se revelava na posição das sobrancelhas, quando uma se erguia e a outra se atiçava diante de um pensamento. Por fim, perguntou como havia sido o Natal de Miguel. Lembrou que ele dissera ter filhos e, talvez, muitos netos. Esperava que a festa dele tivesse sido feita de boas palavras. Data: 30 de dezembro Miguel iniciou a carta desejando a Cecília um maravilhoso ano novo. Comentou que Olga era realmente uma pessoa muito interessante — gostava de convidar as pessoas para fazerem coisas ao redor do fogo, como nas antigas tradições. Refletiu que o Natal já fora, para ele, uma data muito triste. Ainda assim, reconhecia que a literatura lhe ensinara a construir pontes — e essas pontes encurtavam distâncias, conectando pessoas que viviam dentro dele. Contou que tinha filhos e netos, mas que todos moravam longe. Por isso, não estiveram presentes durante o Natal. No entanto, com a ajuda da imaginação e da literatura, aquela ausência se tornava suportável. Data: 6 de janeiro Cecília começou pedindo desculpas pela demora em responder. Contou que o carteiro Jonas lhe perguntara se aquelas cartas eram do pai dela — e ela riu com a possibilidade. Disse que seria engraçado receber uma carta do pai depois de tantos anos. Refletiu sobre como a leitura pode nos levar a entendimentos invertidos. Buscou nas prateleiras o livro da poeta Hilda Hilst, conforme sugestão de Miguel, mas não o encontrou. Por sorte, achou alguns textos na internet. Disse que Hilda lhe pareceu uma pessoa divertida e mal-humorada ao mesmo tempo. Confessou que ficou intrigada com a história de amor e traição mencionada por Miguel no bilhete anterior. Contou que havia assistido, recentemente, a um filme com a mãe — uma adaptação de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen. As duas passaram horas discutindo sobre a obra: teria a autora escrito um romance inocente ou disfarçado temas mais difíceis para sua época? Lembrou que, quando sua mãe engravidou, o pai deixou apenas um bilhete com poucas palavras. Disse que, até hoje, sempre que menciona o nome do pai, os olhos da mãe se enchem de neblina. Nesta história havia muito orgulho envolvido. Data: 15 de janeiro Miguel respondeu dizendo que, ao ouvir Cecília falar sobre o avô, desejou que ele também tivesse tido um. Contou que não conheceu os seus — morreram antes de ele nascer — e que isso lhe deixava uma saudade dolorida, como a saudade de Hilda. Disse que Hilda anotava todos os seus sonhos, e que ele também fazia o mesmo: guardava-os em um caderno ao lado da cama. Admitiu que, em geral, os sonhos não faziam muito sentido, mas ainda assim os escrevia. Lembrou de um conto de Júlio Cortázar que preferia não mais ler agora que estava sozinho naquela casa velha e barulhenta — o conto se chamava Casa Tomada. Comentou, em tom quase desabafo, que nem sabia como tinha ido parar ali, no meio de fantasmas. e então se voltou ao assunto do pai de Cecília. Disse que o caso do pai dela exigia uma investigação cuidadosa. Afirmou que, se Cecília tinha sido capaz de encontrá-lo por causa de um bilhete, então com certeza seria capaz de descobrir muito mais sobre o pai. Mesmo que isso deixasse sua mãe triste, Miguel insistia: a verdade era sempre o melhor caminho. Conversar sobre o assunto poderia ser mais libertador do que fugir dele para sempre. Data: 28 de janeiro Cecília respondeu dizendo que não conhecia o conto Casa Tomada, mas já havia lido outras histórias de Cortázar — as de “cronópios e famas”. Confessou que, à época, não entendia o que significavam os cronópios, até descobrir que nem o próprio autor sabia ao certo. Contou que ajudara Olga nos preparativos para a festa no castelinho, onde havia um fogão a lenha. Jantaram juntos, todos com coroas de papel. Dom Miguel, o livreiro, fez uma coroa de folhas e parecia um elfo. A festa teve leituras, poemas e cantorias — e já passava das cinco da manhã quando retornaram à livraria. Para surpresa de todos, encontraram a porta da frente aberta e o caixa completamente revirado. Diante disso, Dom Miguel deixou um aviso na vitrine: “Senhor larápio, volte quando a livraria estiver aberta. Temos um livro e um café quente à sua espera.” Cecília então compartilhou uma memória da mãe: ela gostava de ouvir os avós cantando juntos. Contou que a mãe adorava música, embora não soubesse dizer o mesmo sobre o pai. Achava que ele era músico — violoncelista e pianista, formado, de sobrenome importante, nascido em berço de ouro. Disse que os pais se conheceram na faculdade. Nem sabia como haviam se apaixonado, mas o fato é que, ao saber da gravidez, ele simplesmente desapareceu e foi para a França. Cecília não sabia se ele havia formado uma nova família — e, na verdade, nem queria saber. Ele nunca demonstrara querer saber dela. A única exceção na família paterna era a tia Pauline, que vivia em São Paulo. Contou que havia trocado algumas mensagens com a tia por meio de uma rede social, e que, em seu aniversário, recebera uma caixa com um presente: um notebook e uma partitura assinada por seu pai, com seu nome no topo. Guardou a partitura no fundo da gaveta de meias. E u falou: de meias verdades, meias palavras e histórias interrompidas. Disse ainda que Olga queria o endereço de Miguel para lhe enviar uma muda de pinheiro. Segundo ela, quem vive perto de um pinheiro nunca mais sente medo de fantasmas ou da solidão. Data: 8 de fevereiro Miguel respondeu dizendo que o pai de Cecília, embora ausente, estava cada vez mais presente nas linhas escritas por ela. Afirmou que ele se fazia vivo nas palavras e pensamentos da jovem. Declarou já considerá-la uma amiga e, com essa liberdade, se atreveu a lhe dar um conselho: comparou o pai a um livro guardado na mesa de cabeceira — um livro que, mais cedo ou mais tarde, precisa ser aberto e lido. Sugeriu que, se ela não conseguia falar com a mãe por receio de magoá-la, que procurasse a tia Pauline. A tia, acreditava ele, saberia revelar algo importante. Miguel confessou que estava curioso para saber mais. Considerava comovente um pai que compõe uma música para a filha — contou que o seu próprio pai inventava histórias, e isso era uma lembrança bonita. Afirmou que valia a pena investigar mais sobre esse pai. E então propôs um pacto: se Cecília descobrisse algo novo sobre o pai, ele lhe revelaria mais sobre o misterioso bilhete. Disse aceitar o presente da muda de pinheiro — afinal, adorava plantar árvores, especialmente as que afastavam fantasmas. Por fim, pediu que ela passasse seu endereço à “rainha”, referindo-se carinhosamente à Olga. Data: 29 de fevereiro Cecília escreveu dizendo que demorara a responder à carta anterior, e acreditava que a de Olga havia chegado primeiro. Contou que, quando dissera a Olga que poderia lhe passar o endereço de Miguel, ela ficara muito feliz — e mais ainda quando soube que ele a havia chamado de “rainha”. Olga, segundo Cecília, até cantou — quem sabe, brincou ela, não tivesse sido mesmo um cupido. Em seguida, voltou a falar do pai. Disse que ele era, para ela, uma “invencionice triste”, fruto da mistura entre sua própria tristeza e a da mãe. Mas agora, já com idade suficiente, começava a entender o que sua mãe sentira ao descobrir que estava grávida e sozinha. Sozinha, não completamente — pois o avô estivera ao seu lado, dando-lhe apoio. Então, compartilhou algo novo — e inesperado. Disse que, por coincidência, a tia Pauline a telefonara recentemente. Ela reuniu coragem para atender. A tia contou que o pai havia voltado ao Brasil e estava passando um tempo com ela, em São Paulo. Cecília conta que ficou paralisada, e alguns segundos lhe pareceram horas, pensou que a tia passaria o telefone para o pai. Nem conseguia respirar direito. Mas Pauline, com ternura, disse apenas: “não se colhe fruta verde... tome seu tempo”. Cecília então pediu desculpas a Miguel, pois estava confusa e chateada, não com ele, mas com o que a carta dele despertara nela. Admitiu que, no fundo, queria que ele a ajudasse a alimentar a raiva que sentia por dentro. Agora, sem o avô, percebeu que seus melhores sentimentos estavam sendo partilhados com os amigos que a vida lhe trouxe: Olga, Dom Miguel, o pessoal do clube do livro — e, claro, o próprio Miguel, seu correspondente. Disse que precisava refletir sobre esse novo personagem que surgia: o pai, chegando de surpresa. Data: 2 de março Miguel confirmou que, de fato, a carta de Olga chegara bem antes da de Cecília. Disse entender sua confusão e até a possível mágoa — o que, para ele, era sinal de que havia sido um bom amigo. Comentou que ser amigo não significava apenas agradar; às vezes, também era preciso provocar incômodos que ajudavam no crescimento. Aconselhou Cecília, dizendo que, quando se trata de assuntos complexos entre pais e filhos, não há outra saída que não o diálogo. Ele, como um velho experiente, recomendava isso com sinceridade. Sugeriu que ela conversasse com todos: a mãe, a tia Pauline, e — especialmente, quando se sentisse pronta — com o pai. Pediu que ela escutasse o conselho daquele "careta e chato". Refletiu que contemplar os pais com seus erros e acertos era algo muito importante, e que aceitá-los como são, com todas as suas imperfeições, era uma parte difícil, mas libertadora. Disse que nem falava de perdão, pois o perdão podia ou não vir, mas a compreensão era essencial. Revelou que havia vivido algo semelhante: ficara anos sem falar com seu próprio pai. A reconciliação fora um processo longo. Por fim, fez uma revelação inesperada. Disse a Cecília que precisava lhe contar algo grave, e esperava que ela o perdoasse: ele não era o Miguel poeta dos bilhetes. Chamava-se Miguel, sim! Mas nunca deixou nenhum bilhete dentro de livro para nenhuma namorada. Só dera continuidade ao assunto porque achara interessante a correspondência. Disse que o verdadeiro Miguel, o poeta do bilhete, já havia morrido há anos. Explicou que era comum que cartas destinadas a ele chegassem em sua casa, já que ambos moravam na mesma rua e tinham nomes quase idênticos. Depois de refletir bastante, decidiu contar a verdade e desfazer a confusão. Pediu desculpas — e implorou seu perdão. Data: 17 de março Cecília respondeu com franqueza. Disse que, na verdade, ambos mereciam um puxão de orelha. Confessou que já sabia, desde algum tempo, que ele não era o verdadeiro Miguel poeta, pois a internet já lhe revelara essa informação. No entanto, o que se criara entre os dois por meio das cartas ganhara tamanha profundidade que ela decidiu continuar a correspondência. As cartas, para ela, tornaram-se um lembrete do avô — uma forma de não perder o vínculo com suas memórias mais queridas. Com o tempo, deixou o poeta Miguel de lado e passou a valorizar o amigo Miguel, aquele que surgira por acaso, ou melhor, por extravio dos Correios. Brincou dizendo que a existência do bilhete havia sido, em certa medida, um estímulo à criatividade — e apostava que o verdadeiro poeta Miguel adoraria a história. Contou então uma novidade importante: havia conversado por telefone com o pai. Mas, antes disso, tivera uma longa e significativa conversa com a mãe. Mostrou a ela um trecho da carta de Miguel — aquele que falava sobre aceitar o passado. Achava que sua mãe, ao lê-lo, viu o mesmo que ela via: as lembranças do avô. Cecília descreveu o pai como um homem sério e direto. Disse que ele lhe pedira para considerar a possibilidade de passar alguns dias com ele em São Paulo, na casa da tia Pauline, ela confessou que venceu a vontade de despejar tudo o que estava entalado e, em vez disso, sugeriu que o pai lhe escrevesse uma carta. Declarou que aceitaria encontrá-lo, independentemente do que a carta dissesse, mas que ainda precisava conversar com a mãe sobre isso. A vida delas, afinal, era bonita. Ela tinha sido uma neta feliz ao lado do avô, possuía amigos incríveis, um castelo para visitar e um amigo, Miguel, que escrevia cartas, falava sobre a vida, livros, passado e esperança no futuro. Terminou agradecendo a ele. Disse que as cartas dos dois haviam desmontado o terror que ela vinha costurando dentro de si. Data: 1º de abril Miguel respondeu dizendo que aquele era um dia memorável. Ficou feliz ao saber que Cecília finalmente havia falado com o pai e acreditava que também havia conversado com a mãe. Disse isso porque sabia, por experiência própria, o quanto se pode empurrar certas coisas com a barriga, mesmo quando uma simples conversa poderia aliviar ou resolver grandes problemas. Mas ela havia conseguido: tinha aberto espaço para o diálogo — e isso era algo poderoso. Comentou, com ternura, como os dois haviam brincado com a história do bilhete, transformando o acaso em afeto. Contou também que ele e Olga estavam se falando bastante, inclusive por telefone. Estavam combinando uma visita até a cidade de Cecília. Olga havia oferecido hospedagem no castelinho. Por ora, seria apenas uma visita. Pediu que ela aguardasse notícias. Data: 10 de abril Cecília escreveu dizendo que Miguel já sabia o quanto ela gostava de pesquisar coisas aleatórias. Contou que estivera lendo sobre o dia em que Dom Pedro I teria falado ao telefone pela primeira vez no Brasil — imaginava que, na época, aquilo havia sido um escândalo. Confessou não saber se era tão esperta quanto Miguel dizia, mas afirmou que as trocas de cartas entre os dois haviam sido importantes demais para se perderem em bobagens. Disse que o amigo poeta, mesmo tendo deixado o mundo dos vivos acabara reunindo ambos em amizade, e por isso lhe era grata, onde quer que ele estivesse. Refletiu sobre a vida, chamando-a de uma brincadeira de luz e sombra. Citou um filósofo, dizendo que é preciso coragem para sair da caverna e enxergar a realidade. Contou que a mãe tinha sua própria versão da verdade — e continuava acreditando nela. Lembrou que, enquanto lia sobre Dom Pedro ao telefone, os pais dela também davam início a uma primeira conversa. Disse não saber se a mãe conseguiria perdoar o pai, mas acreditava que ela merecia deixar as coisas ruins no passado. Não sabia se “resolvido” era a palavra certa, mas sentia que era preciso tirar as mágoas e os medos de dentro do peitoe para isso, era necessário ter coragem. Contou que ela e a mãe haviam arranjado uma pousada para o pai e a tia Pauline, numa cidade próxima. Achava que havia chegado o momento de “lavar a roupa suja” — e esperava que houvesse sol. Revelou que o pai escrevera uma carta contando tudo, em detalhes: como havia sido sua chegada do estrangeiro, como passara perto de um piano... mas não dissera nada sobre ela, nem sobre o fato de ela ser sua filha. Ainda assim, concluiu com ternura: estava dando muitas voltas para dizer que coragem era algo que possuía — mas que ficava ainda melhor quando os amigos estavam por perto. E então lançou um convite a Miguel: que tal ele vir ao castelinho da “rainha ninja Olga” e ajudá-la com essa história enrolada e empoeirada, como uma enciclopédia esquecida numa prateleira de livraria? Disse que o pessoal do clube do livro estava ansioso para conhecê-lo, e que Dom Miguel só falava nisso. Estava certa de que todos se dariam muito bem. Encerra com o desafio: aceitava o convite?

